"Por um tempo amaciado, de degelo, de fins de Novembro,
cerca das nove da manhã, o comboio do caminho-de-ferro Petesburgo-Varsóvia
aproxima-se a todo o vapor de S. Petesburgo."
Assim iniciamos a nossa viagem a história de Dostoievski – O Idiota.
A um tempo atrás, não sei o que me deu meio a uma nostalgia
imensa, assisti uma série que dava na televisão brasileira - TV Cultura - quando
ainda era criança. Neste episódio, em particular, um dos subtemas era o facto de
uma das personagens principais querer ser escritora e, para tal, ter em
consideração a opinião de um rapaz que tinha ar de inteligência superior. Bem,
mas isso não vem ao caso. O facto é que este personagem secundário – (que fora
integrado apenas para esse capitulo) – dizia que para se ser um bom escritor a
pessoa tinha que ter vivencia. Ou seja, tinha que ter experimentado aquilo que
se pretendia passar aos leitores. O que a meu entender, visto que o personagem
era um tresloucado, no qual a grande vivencia dele era ficar alheio ao real,
deveria sair uma “bela obra”. Bem, lembrei disso após começar a ler Dostoievski.
Claro que a vivencia de determinado tema dá à-vontade para aborda-lo, mas tem
algo mais que comecei a percebe e que perpetua uma obra como a do autor de “O Idiota”. Este “porém” faz toda a
diferença. Ele mesmo escreveu:
"Os escritores, nos seus romances e contos, tentam na maior
parte dos casos recorrer aos tipos sociais e apresentá-los em imagens e moldes
artísticos, tipos esses, que na realidade, raramente se encontram no seu
estado puro mas que, apesar disso, quase parecem mais reais do que a própria
realidade.”
Penso que não é só a vivência, mas a percepção da alma
humana, onde nada é por acaso e ninguém tem 100% de decência na sua jornada que
marca a obra deste autor e de outros com tanta qualidade. Aqui, nesta obra, não
há exagero nos seus principais e secundários. Todos eles deixam marca à sua
passagem por poderem – (Como o próprio autor afirma) – serem encontrados em
qualquer conhecido, mesmo que de forma diluída. Seus defeitos e qualidades não
são tão insuportáveis como encontramos em qualquer conhecido ou familiar.
O título O Idiota
fica como algo ambíguo, pois para os russos, dependendo de seu contexto, leva
significado distinto e bem antagônico: em primeiro o mais comum a nossa língua portuguesa,
em que a palavra leva aquelas pessoas com comportamentos que dá a distinguir
sua estupidez ou, simplesmente, sua perfeita demência por qualquer motivo. A
segunda, para aquela pessoa que deixa a sua marca nas outras como um
aprendizado digno de ser copiado – um professor.
Porque desde sempre procuramos os mais puros dos sentimentos
em um único ser, mas, este aos olhos de uma sociedade que molda caracteres,
leva a um falso entendimento do que é ser um bom homem ou um completo
tolo. Aquele que enxerga o bom em tudo, ou tenta ver em tudo o bem, não pode
ser considerado como dono de todas as suas faculdades. Este é Lev Nikolaivitch –
o príncipe. O bom homem ao seu
extremo. Aquele que tem armazenado em si todas as qualidades humanas, deixando
de lado a auto preservação de que todos somos dotados, correndo muitos riscos no
meio das ditas “pessoas normais”.
Das restantes personagens resta as falhas humanas,
camufladas por uma falsa dignidade que consegue dobrar o sentido de sua real intenção.
Por vezes os defeitos são colocados mais de uma vez,
confrontando o personagem principal de diversas maneiras. Expões de melhor
forma – (mas do avesso) – “a grama do vizinho”. “Os defeitos dos nossos são
sempre mais perdoáveis que os dos outros”. O julgamento de uma personalidade
sem se compadecer de sua verdadeira história e dos tormentos de uma determinada
alma pode levar a comportamentos absurdos, mas sem eximir a sua culpabilidade.
Desta última ideia surge Natassia Filiapovna e Aglaia
Ivanovna. Que a meu ver, são duas personagens de semelhante carácter, separadas
apenas por sua vivencia e posição social. A uma, tudo é perdoado pois que por de trás está uma família aparentemente bem definida e bem colocada socialmente. A outra, em nada lhe é perdoado, pois está só "entregue aos leões". Ela não se entrega e mostra que veio com toda as suas forças para vencer e, isso, lhe faz cair em desgraça aos olhos da sociedade.
O dinheiro e companhias moldam o pensamento social...levando a uma história surpreendente e nada fantasiosa.
O Idiota é daqueles livros que te fazem pensar a cada virar de pagina, deixando um gostinho de "quero mais", levando a um final surpreendente.
O dinheiro e companhias moldam o pensamento social...levando a uma história surpreendente e nada fantasiosa.
O Idiota é daqueles livros que te fazem pensar a cada virar de pagina, deixando um gostinho de "quero mais", levando a um final surpreendente.
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